Something’s Missing
Eu acordei de manhã cedo. Era tão cedo que o galo nem cantado tinha, e o galo sempre cantava.
Me debrucei na janela e acendi meu cigarro matinal. Esperei o sol se levantar completamente e contemplei a vista da Floresta da Tijuca… Respirei aquele ar puro, traguei um pouco do meu veneno e fui preparar um café. Logo todos estariam de pé.
Meu marido não tardou a aparecer, me beijou com ternura, como fazia todas as manhãs e, abotoando sua camisa, comentou que estava atrasado demais, deveria partir. Perguntei, por hábito, se não iria tomar café, mas sabia que não o faria, sempre tinha mais o que resolver no escritório. Era hora de acordar Lucas e prepará-lo ao colégio. Enquanto lutava com a cama, dizia que odiava o colégio, não queriar ir. Quantas mentiras, sei que ele adorava aquele lugar. Esperei, paciente, tudo o que tinha que esperar.
Quando terminou de espenear o menino foi se trocar e eu acendi mais um cigarro. Me olhei no espelho e vi algumas rugas aparecendo na minha pele… aquilo me preocupou, não me reconheci por um tempo. Lucas se arrumou sem a minha ajuda e percebi que estava ficando independente, logo, já não precisaria de mim.
Levei-o ao lugar onde a condução da escola vinha buscá-lo sempre. Ele já estava muito grande, não queria me beijar na frente dos amigos, e eu, dessa vez, não me importei.
Gostava de ficar só em casa, era meu reino, era meu lugar. Nunca pude fazer minhas escolhas, mas nesta casa, quando ninguém mais aqui estava, eu era a dona de tudo. Tomei um banho, sequei meus cabelos com cuidado, hoje eu resolvi que não ia cozinhar, ia cuidar de mim. Hoje, afinal, era 19 de Junho, e era um dia a ser comemorado.
Me maquiei como há muito não o fazia. Lábios vermelhos sempre foram os meus preferidos. Um vestido um pouco decotado talvez não me caísse mal. Coloquei meu melhor par de sapatos, que eu guardava apenas para ocasiões especiais como essa…
Escolhi minhas jóias, as mais belas, herança de avós. Peguei o carro, que hoje em dia era somente usado para ir ao supermercado e fui em direção ao campo.
Levei uma toalha para poder não sujar meu vestido e me deitei, fechei os olhos e sonhei. Sonhei com meus quinze anos de volta, as aventuras vividas, os sonhos, as músicas ao pé do ouvido, sonhei com a sua casa…
Não darei detalhes dos meus sonhos, pois a intimidade de um sonho é maior que a intimidade de uma relação sexual. O sonho é o inconsciente falando e o nosso inconsciente só fala o que jamais teríamos coragem de admitir a nós mesmos e aos outros. Nem sei quanto tempo passei por lá, apenas sei que levantei apressada! Ainda tinha mais dois lugares a visitar!
Rua Camaragibe número 2, sua casa naquela época. Parei meu carro e vi como o prédio havia mudado, me choquei com a igreja universal que construiram debaixo do que costumava ser sua casa, e me entristeci por notar que o tempo passara tão depressa e não deixara nada para mim. Eu fui até lá para ver com meus próprios olhos o lugar onde vivi os melhores dias da minha vida mas não pude suportar lidar com um lugar tão mudado. Era hora de enfrentar o último encontro. O derradeiro encontro. Logo mais já teria que buscar Lucas no judô que fazia depois da aula.
Dirigi vagarosa e temerosamente, meu coração pulsando a cada segundo. Sabia que poderia ser catastrófico mas em um dia tão especial, no aniversário de 45 anos, eu precisava rever-lhe… Desde os 20 anos e quebrados nós não temos notícias um do outro, mas eu sempre cumpro o mesmo ritual no dia 19 de Junho pois desta vez ireai ainda mais fundo… espero que não tenha mudado de emprego, do fundo do coração.
Entrei no prédio. Sempre achei esse lugar chique demais para mim, por isso me visto especialmente bem quando venho, mas nunca falei com ninguém por aqui. Olhei em volta, incerta… me aproximei do balcão e murmurei:
“O doutor Fernandes por favor, tenho hora marcada”.
A secretária nem me olhou.
“Doutor Fernandes não se encontra no momento”
“Mas eu tenho hora marcada…” Minha voz mal saía.
“Já deverá estar de volta, só foi buscar um lanche. Pode aguardar aqui mesmo”
Me apontou uma poltrona e eu, hesitante, nela sentei. Esperei por minutos que pareciam horas até que um homem, grisalho, barba por fazer rente ao rosto, estatura média e nariz anduco surgiu na sala e marchou direto ao encontro da secretária, que murmurou algo a ele, e logo, me lançou um olhar. A esta altura eu já estava andando em direção à porta.
Tudo que eu queria era vê-lo, já havia conquistado meu objetivo, já poderia ir embora.
“Ana” Uma voz grave e firme, sem hesitar, me chamou. O nome que eu havia dado há secretária era Lourdes. Ele me reconhecera.
Em passos firmes ele andou em minha direção.
Nos olhamos pelo que me pareceu muitas horas, e eu guardei aqueles olhos no meu coração para toda a eternidade. Eu sorri. Ele sorriu. Disse-me que era bom ver-me e eu lhe disse “Feliz aniversário de namoro”. Ele me deu um abraço cordial e sincero, abraço que guardei na minha caixa de abraços de amor onde somente os braços dele cabem.
Eu fui embora deixando para trás nada além do homem com quem eu passaria a minha vida inteira junto. Eu levei comigo mais lembranças, mais sonhos e mais saudades. Me apressei para entrar no carro, tinha que buscar o Lucas no judô.